Tela Poeira dos Astros, circa 2018
Acrílica sobre tela
Acervo MNBA/IBRAM
Somos todos poeira de estrelas? A cada vez que voltamos o olhar ao céu em busca de respostas, esquecemos a delicadeza da Terra — tão pequena que poderia caber em uma concha, tão vasta que poderia conter um universo. O infinito cósmico, embora distante, guarda a mesma fragilidade que nos constitui. Como lembra Marilena Chauí, desejo vem de desiderare: estar separado dos astros, viver a ausência de sua resposta. É justamente essa distância, entre nós e as estrelas, entre o que somos e o que ainda podemos vir a ser, que nos move a criar, imaginar e sentir. Em Poeira dos Astros, Lena Bergstein evoca a infinitude cósmica e a memória de que somos feitos de poeira estelar. As partículas luminosas que emergem pela corrosão parecem inscrever nossa marca, precária e persistente, tanto no cosmos quanto na Terra. Já Leonilson, em sua obra Sem Título, apresenta o sagrado coração em bronze — metal durável, resistente, condutor de calor e eletricidade. Ao não nomear a peça, o artista desloca o espiritual para o humano, propondo um religare que une afetos, vínculos e energia vital. Em Sobre Nácar, Anna Bella Geiger desenha uma cartografia mínima, nascida do brilho protetor da madrepérola: gesto de defesa que reveste a ferida e metáfora de nossa fragilidade diante do mundo. Essas três obras convergem como centelhas de um mesmo impulso: indagar o que somos, do que somos feitos e o que, em nossa diversidade, ainda nos assemelha. Entre cosmos e Terra, finitude e resistência, revelam a busca humana por sentido e permanência em meio ao mistério da existência.
Acrylic on canvas
MNBA/IBRAM Collection
Are we all made of stardust?
Each time we gaze at the sky in search of answers, we often forget the delicacy of the Earth — so small it could fit inside a shell, yet so vast it could contain an entire universe.
The cosmic infinity, though distant, holds the same fragility that forms us. As philosopher Marilena Chauí reminds us, desire comes from desiderare — to be separated from the stars, to live in the absence of their response.
It is precisely this distance — between us and the stars, between what we are and what we may still become — that moves us to create, imagine, and feel.
In Stardust, Lena Bergstein evokes the cosmic infinitude and the memory that we are made of star matter. The luminous particles that emerge through corrosion seem to inscribe our mark — precarious yet persistent — both in the cosmos and on Earth.
Nearby, Leonilson’s Untitled presents the Sacred Heart in bronze — a metal both durable and conductive, a vessel for heat and energy. By leaving the piece unnamed, the artist shifts the sacred toward the human, proposing a religare that connects affection, bonds, and vital energy.
In On Mother-of-Pearl, Anna Bella Geiger draws a minimal cartography born from the nacre’s protective sheen — a gesture of defense that coats the wound, a metaphor for our fragility before the world.
These three works converge like sparks from a shared impulse: to ask what we are, what we are made of, and what, in our diversity, still unites us. Between cosmos and Earth, finitude and endurance, they reveal the human search for meaning and permanence amid the mystery of existence.